sábado, 5 de janeiro de 2013

A INSTITUIÇÃO PIA NEM SEMPRE CARIDOSA




“És o lema: é o que se propõem os membros dessa Pia Instituição da Santa Casa da Misericórdia do Brasil:Criar, Instruir e Aliviar o mais possível, os indivíduos das classes pobres e sofredoras. Sua caridade não se limita a acolher os aflitos, vai procura-los e levar-lhes consolações e socorro em seus asilos particulares.”
                       “O rei, os príncipes e todos os fidalgos da corte, e centenas de outras pessoas de linhagem mais e menos eminentes, pertencem a essa associação. Nas reuniões, sempre quando são chamados, comparecem desde o fidalgo ao artífice, na mesma mesa.
Sentados lado a lado, tendo ambos o mesmo direito de votar, de decidir gozam da perfeita igualdade. Cada um dos seus associados dão certas quantia em dinheiro, mensal ou quanto puder, para às despesas que dispõe a “confraria”.Fazem também, os associados “legados” compromissos em vida para que no testamento seus bens sejam para a Santa Casa da Misericórdia, e em troca fazem dizer certos números de missas pelo repouso de sua alma e jazigo perpétuo.Aqueles que deixam grandes fortunas, têm o direito além dos citados acima, ter seu retrato na galeria dos benfeitores da Santa Casa. Mas a escolha de seus membros passam por uma triagem: ascendência, moral elevada, ser católico praticante, caridoso e principalmente ter cabedal.Esses são os requisito básicos para ser irmão da Santa Casa da Misericórdia.Sobre a égide de Nossa Senhora da Misericórdia.”
                  A aplicação desses recursos será para a manutenção dos seguintes estabelecimentos:
 Asilo do exposto: - Casa da Roda, recolhimento das crianças expostas ou enjeitadas como eram chamados, “ministrando os primeiros socorros da criação e o desenvolvimento da idade até os 15 anos, quando saiam sabendo as primeiras letras, ler e escrever rudimentarmente.
São levadas a Roda as crianças infelizes, abandonadas, sem nomes e sem família, filhos da miséria ou do crime, que recolhidos, o Asilo a preparava para a sociedade, para viver uma vida digna, nobre e honesto. Os meninos recebem aprendizado de ofício e as meninas com prendas domésticas e, além disso as moças recebem um dote para o casamento e quase sempre são adotadas.É administrado para todos os serviços religiosos. Havia também, crianças enjeitadas recém-nascidas de mães solteiras e que    pertenciam a famílias ricas, chamadas “boa da terra” eram  perfeitamente identificadas pelas roupas e muitas vezes com jóias.Não havia distinção de cor para os serviços da Santa Casa da Misericórdia. Seu lema era a Caridade.
 Hospício para os pobres – São recolhidos das ruas, mulheres e homens doentes e em situações deploráveis. Os membros da confraria impõem-se o piedoso dever de fazer enterrar os pobres, seja qual for a sua origem, ocupando-se também de melhorar a sorte dos presos nas enxovias públicas. Dando muitas vezes alimentos e dependendo dos casos até a defesa do réu. Se foram condenados, acompanhando-o até o lugar da execução, onde o exortam a arrepender-se. Estende-se até o túmulo que sepultam com decência. Comportam-se com o mesmo modo para com as pessoas que morrem na indigência.
Hospício da Santa Casa da Misericórdia – Constituída para atender os doentes indigentes, principalmente os marinheiros desta e de outras regiões. Também existente em todas as Províncias. Foi assentada a aquisição do sitio de Nazareth, para ser fundado o Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Sendo o Provedor Inácio da Cunha de Menezes, adquiriu a roça de Antonio Álvares a 19 de maio de 1828 por 15:200$000 contos de réis, sendo 4:000$000 à vista e o restante à prazo.
Em 13 de junho de 1828 – foi colocada a pedra fundamental. Ali foi embutida uma medalha de ouro de 10 centímetros de diâmetros com dizeres para a inauguração. A obra de Nazareth foi crescendo lentamente, com esforço descontinuado que durou mais de meio século. Continuaram as obras com donativos dos homens bons da Bahia, heranças e da concessão da loteria e finalmente inaugurado em 1893.
Cemitérios – Administrado pela Santa Casa em todas as Províncias.
Asilo para alienados – Conjugado com o hospício. Para homens e mulheres, infelizes loucos que viviam soltos pelas ruas. Assistidos por médicos e alimentação. “Infelizmente o local em que eles ficam é de extrema umidade chamada de enxovia.”
 Com esses esclarecimentos narrados pelo padre Gusmão, reverendo da Santa Casa, fiquei sabendo dessa instituição. Essa é a maior instituição pública do Brasil, desde o seu descobrimento. Haja visto que existem as Irmandades que são constituídas pelos irmãos nelas filiadas. São várias Irmandades, cada qual obedece a seu estatuto, criadas por brancos, pretos e mulatos. Não se mistura, cada uma quer ser melhor que a outra, com finalidades sociais de grande importância para as comunidades.
As Irmandades tinham seus objetivos em ajudar seus irmãos menos favorecidos. Principalmente a Irmandade de N.S. do Rosário dos Homens Pretos, já existia no século XVII por escravos da Bahia. Creio ser a mais antiga do país. Muitos escravos foram libertos por essa confraria.”(palavras de De La Salle – comandante da corveta La Bonite durante a sua permanência no Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia nos anos de 1836 a l837 – autor: Cândido de Mello Leitão – págs. 79 a l00 do livro: “Visitantes do Primeiro Império”.)

 Trabalho de pesquisa:         
Álvaro Bento Marques
    SSA, nov. de 2005.
O MOVIMENTADO SISTEMA INTERNO DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DURANTE O PERÍODO COLONIAL NOS ANOS DE 1855 A 1856 NA BAHIA.
A Santa Casa cobrava do proprietário do escravo doente no seu Hospital, os serviços prestados, curativos, vestuário e alimentação durante todo o período e na morte do mesmo as despesas de mortalha, bangüê e tumba. Se praticava nesta época a medicina de sanguessunga, banho de aguardente, genebra, conhac para uso interno.
Alimentos para os doentes: Farinha de Trigo (pão), bacalhau, peixe, feijão, chá, farinha de mandioca, toucinho, galinha, carne seca, manteiga, vinho, doce, açúcar, vinagre. Outras despesas; lenha e água. Vestuário; Tecido de algodão grosso para calça e camiseta. Cobertores, barretes (gorros), baetas. E rações para os animais de carga e alimentos para os empregados e escravos do serviço da Santa Casa. Considerado Despesa do mês. Como também rapé (tabaco em pó) sabão, papel, penas de aço (para a escrita), azeite de mamona, velas, alfazema, papeletas guias em impressos e outros artigos para os serviços da expedição.
Na passagem do Coléra morbus em 1855 a 1856 houve muita morte (aterramentos) nos Cemitérios da cidade e no Recôncavo baiano. Mas muitas pessoas ainda queriam sepultar os seus mortos nas Igrejas o que não foi permitido nesta data em diante. Para se ter uma idéia dos números de mortes: “Foram feitos nos Cemitérios no mês de setembro 220 aterramentos de escravos e 24 marinheiros dos navios de guerra nacionais – data 16 de agosto de 1855.(pág. Nº 94 do livro nº 337 “Diário” de todas as transações da Stª Casa em 1855 a 1856)
 A Santa Casa, recebia da Tesouraria Provincial, pagamento do subsídio fornecido pelo Governo, referente as alimentação, curativos, vestuário dos presos da justiça a cargo  dos serviços da Santa Casa que estavam na Casa de Correção e Fortes.
A Santa Casa cobrava do proprietário do escravo preso na Aljube, alimentos variáveis durante todo o tempo de carceragem.
Geralmente o doente ou acidentado vão para o Hospital de Caridade, levando os seus pertences, inclusive o dinheiro que é entregue ao Tesoureiro: “Dinheiro achado nos doentes no Hospital, entregue ao cofre geral do Hospital, referente a dois doentes Manoel Dionísio e José Victor Pereira os quais morreram, valor 6$540 serão para as despesas que tiveram no Hospital.”
Para as crianças expostas (Roda) recém nascido, damos alimentos; acaçás, mandioca para papas, leite e caldo de galinha.Pagamos a uma ama para tomar conta da criança.
“Recebi do africano liberto Antonio de Castro pelo aterramento do cadáver de seu filho Antonio Basílio crioulo, com 8 dias de nascido e falecido do mal de 7 dias”. Nesta época as causas mortes tinham nomes bem estranhos dos nossos dias atuais. Vejamos: morte por dentição, morte de umbigo, morte de dor no peito, morte por constipação cerebral, asfixias e outros.
A Santa Casa da Misericórdia emprestava dinheiro a juros de 5 a 6% ao ano e arrogava terras, fazendas e Engenho de açúcar. Tinha 185 imóveis urbanos  alugados em 1855 e 72 terrenos que se acha nesta cidade e 6 fazendas em Santo Amaro. Já naquela época seu patrimônio era uma fortuna não revelada publicamente.
Recolhimento do Santo Nome de Jesus, inaugurado em 29.06.1716 para mulheres órfãs e necessitadas. Como também para as viúvas e dependentes pobres nesta classe chamada de “visitadas”. “A Santa Casa, paga a 27 mulheres pobres do seu socorro sobre o titulo de visitadas de suas esmolas, relativo ao mês em curso, outubro de 1855.”A Santa Casa pagava pelo “dote” da Recolhida no seu casamento ao marido que era oficialmente conferido em sermão da Mesa de Aprovação, juntamente com o vestido de noiva. No livro A. J. R. Russell Wood. “Fidalgos e Filantropos” A Santa Casa Da Misericórdia da Bahia 1550-1755 págs. 252/265. “O recolhimento se destina primordialmente a jovens de famílias da classe média, de idade casadoura, e cuja honra estivesse ameaçada pela perda do pai ou da mãe, ou ambos. Eram aceitas como “recolhidas” ou reclusas, e ao casar-se recebiam um dote. Havia outros grupos de mulheres; as “procionistas”, viúvas ou solteiras de boa reputação que pagassem seu alojamento e alimentação. O segundo grupo era de mulheres cujos maridos estivesse ausentes da Bahia a negócios e que ficariam no recolhimento durante o afastamento daqueles”. As normas gerais do Recolhimento foram impostas por guardiões: Estipulam a Mesa certas condições: Tinham de ser virtuosas de extração crista-velha e branca, não aceitavam parda. As pretendentes passavam por uma sindicância rigorosa e duravam semanas”.(Fonte: Livro nº 337 “Diário” de todas as Transações da Santa Casa da Misericórdia (livro de receitas) de 1855 a 1856)
Coisa da época: Havia o transporte do defunto rico chamado de “Patrusca”,carro fúnebre movido a tração animal, todo revestido de pano preto até o animal seriam dois pretos com plumagem ornado na cabeça de cor vermelha, carruagem de luxo que pertencia a Santa Casa.
Nesta época já era usado nas Igrejas, Conventos e residências o azeite de mamona com torceiras para  iluminar os lampiões e catiças. A iluminação pública era com o azeite de baleia de custo menor.
O Cólera morbus atingiu todas as classes sociais e principalmente os escravos. A mortandade elevou o número de vítima para mais de 30.000 entre a capital e o recôncavo baiano. Os melhores médicos foram dar socorro e pouco a medicina fez para estancar a epidemia  reinante que durou hum ano. A queda da produção de açúcar, fumo, algodão e outros agrícolas, ficaram abaixo do desejado por falta da mão de obra escrava e novas compras de escravos foram feitas para substituir os mortos. Neste período cresceu muito o tráfego clandestino na Bahia.Como também foi o período que a Santa Casa mais ganhou dinheiro.
"O Cólera morbus é uma doença infecciosa que ataca o intestino dos seres humanos. Na época a medicina desconhecia a causa."
A população escrava eram de nações; Ussá, Tapa, Benguela, Gêge, Angola, Congo, Mina, Caxá, Fulamin, Bornon, Camarões, São Thomé, Bantu, Buzú, Galinha, Moçambique, Benguela, conforme registro no “Livro nº 1.273 Banguê e Tumba dos escravos mortos em 1834 a 1835” da Santa Casa da Misericórdia da Bahia. Neste período morreram muitos escravos Ussás, principalmente no ano de 1835 na revolta dos Malês.
“As moléstia mais predominantes, como sempre foram a tuberculose pulmonar, o reumatismo articular, a varíola, as úlceras sifilisticas, e em geral a syphilis da visão e todas as suas manifestações mórbidas.” (Fonte do Livro de Registro Clínico e Estatistico e Nesologico do Hospital de Caridade da STª Casa da Misericordia 1º de julho de 1871 – assinado pelo médico interno Dr. José Inácio de Oliveira.)
Coisas interessante da época:

O termo empregado Crioulo significa; escravo nascido no Brasil e que falava a língua da terra ou escravo latino. Escravo africano era o escravo vindo da África. Cabra é a mistura da cor negra com branco. Hoje diz Mulato ou Mulata (mestiço)
A palavra Fiel era uma função do empregado da Santa Casa.
Havia a escrita em pena de aves ou pena de metal muito usado nos séculos passados.
Neste século não havia a água canalizada, comprava-se água para beber e uso geral.
O escravo vai para a venda judicial e arrolado no inventário com o preço da alforria será o mesmo da avaliação.
Na morte do escravo o dono dá baixa no seu patrimônio como se fosse uma peça, por exemplo: “Na morte do escravo Cosme de nação Ussá, escravo da Santa Casa de Misericórdia, em serviço no Cemitério do Campo Santo a qual faleceu no dia 10.10.1855 no Hospital da Caridade por efeito do Cholera morbus reinante. Tendo sido comprado em abril de 1850 por 430$000,00 incluso nos bens imóveis da mesma Santa Casa, sendo agora excluído”.(Livro nº337 Diário de Receita e Despesas relativo ao ano de 1855 a 1856, na Bahia.)
“Na Casa da Santa Misericórdia nesta cidade, tem um chafariz que foi construída no pátio no centro, em 1702 sobre ela, acha-se uma bela estátua de mármore branco de Portugal, representando a CARIDADE, a qual foi oferta do irmão Provedor Francisco José Godinho”.(Fonte do Almanaque da Província da Bahia – publicado em 1881).




Pesquisa de Álvaro B. Marques
SSA,30.12.2012.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

BICO DE PENA

 Fazendo pesquisa no Arquivo Público do Estado da Bahia, encontre um documento manuscrito de compromisso com data de 1684, original, solicitação ao El- Rei de Portugal D. Manoel para constituir a Irmandade de São Benedito na matriz da Igreja da Conceição da Praia, nesta cidade. Pedido dos devotos. Com muita admiração reparei a beleza da caligrafia em bico de pena, escrita perfeita com arte, precisa de qualidade em cima do papel grosso da época. Feita com instrumento simples e rude na Idade Média. Não há comparação com a escrita do profissional liberal e do estudante de hoje. Penso que perdeu-se o gosto para a escrita à mão pra dar lugar ao computador de memória que os jovens recorrem como sendo o elemento manual. Os tempos mudaram e a perfeição esquecida. A bela da caligrafia não mais existe.Hoje, com o avanço da tecnologia em informática o professor perdeu espaço na sala de aula. O aluno recorre mais ao compuador do que os bons livros de ensino. E assim, perde o educador o incentivo de ensinar o que é uma arte universal. Não sou professor, mas os livros ensinaram-me a ler, escrever, falar e raciocinar no decorrer dos anos. Tenho com os livros amizade inseparável e o computador uma ferramenta da comunicação.

 N.B.: A pena de ave, possivelmente de ganso ou de pássaro grande serviram para a escrita. “molhava o bico da pena no tinteiro e aplicava a caligrafia no papel.”
 “A escrita representa um meio universal de comunicação e caligrafar significa estar atento às regras de beleza e harmonia que governam a forma das letras.”(internet-Net)
Sem a escrita não se forma palavras.

 Pesquisa de Álvaro B. Marques SSA,24.12.2012.

 .

Álvaro B. Marques

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A CULINÁRIA BAIANA NO TEMPO DOS MEUS AVÔS

. A culinária geralmente obedece a tradição familiar ou regional, e a Bahia não foge da regra. Já dizia o Afrânio Peixoto, historiador regional. “ A Bahia é um feliz consórcio do melhor de Portugal a sobremesa e a preferência pelos pescados, e da Costa Africana o óleo de dendê, com outros temperos, condimentos e pimenta, pode-se benzer tudo”. Mas, a vinda de emigrantes e pessoas de outras regiões brasileiras, trouxeram hábitos diferentes e colocaram outras iguarias no cardápio baiano. Mas isso não diminuiu a chamada comida típica baiana de tradicional sabor e fama até no exterior. São poucas as famílias que ainda conservam a tradição dos círculos de festas aliado à culinária, por exemplo: Semana Santa e Quaresma não se podia comer carne de qualquer espécie. Neste período de abstenção a alimentação do católico era frutas, legumes e “comida baiana” chamado pelo povo: caruru, vatapá, arroz, efó, farofa de dendê com camarão seco, peixes diversos, mariscada, feijão com leite de coco, pão e vinho. Normalmente, nas datas festivas dos santos católicos, principalmente de São Cosme e São Damião, era servido às iguarias acima com muita algazarra de crianças e muito doce. Está tradição foi sistematizado por brasileiros descendentes de escravos africanos que trouxeram para o Brasil no período da escravidão. As comidas são do preceito do Candomblé que oferece essas “comidas de santos” como são chamada na seita. Na véspera e no dia de São João a culinária faz outra mudança bem nordestina: canjica de milho verde, bolo de vários sabores, milho cozido e assado, pamonha de milho e de carimã, beiju, arroz doce, batata doce, inhame, aipim, laranja, cuscuz de milho, tapioca e carimã. Contando com a tradicional “fogueira de São João”, fogos de artifícios, bandeiras multicoloridas e principalmente o afamado licor de jenipapo, havendo outros sabores Não posso esquecer dos afamados Mingaús de vários sabores; milho, arroz, tapioca, mungunza e carimã eram as delícias da garotada. Vamos acompanhar abaixo a relação de comidas baianas: Moqueca de peixe com cozido do caldo, imerso em dendê, com farofa (farinha molhada no mesmo dendê). Frigideira diversos sabores de camarão fresco, siri, ostra e mexilhões. Vatapá, caruru, peixe, mariscos, galinha de molho pardo e xim-xim de galinha com dendê, arroz, fruta pão, efó, xim-xim de bofe com dendê, peru, pato, sarapatel. Carurú – Pode ser feito de quiabo, bredo de mangangona, língua de vaca. Efó – Pode ser feito de tapioca, língua de vaca, bredo, espinafre, transforma em purê. Xim-xim. Deve ser feito de galinha, pato ou peru. Arroz de Auçá ou Usá – É o arroz dos haussás como também fora chamados, etnia africana vindo para a Bahia como escravo e deixou o seu hábito para os descendentes e culinária baiana. Preparo o arroz mole com água e sal. Acarajé, feijão fradinho, feito em purê, frito em dendê com forma de bolinho, molho de pimenta malaqueta cozida. Bobó de vários sabores; aipim, inhame, mandioquinha e de fruta pão. Moqueca de pititinga, envolvida na folha de bananeira. Feijão com leite de coco e feijão com dendê. Moqueca de galinha com camarão seco, dendê, alho, sal e ori, fruta africana para tempero. Arroz de cuxá é o arroz branco cozido sem sal, formato de bolo que acompanha o vatapá. Ecuru, farofa com feijão fradinho e camarão, cebola, sal e dendê. Zambê, farinha molhada no dendê. Abu, banana assada com azeite e tempero. Latipá, folha de mostarda molhada no dendê. Aturé, molho de pimenta malaqueta cozida e torrada que se transforma em pó. Afum-aquedê, purê de língua de vaca. Muganga, tempero de raiz de mostarda com folha de taioba. Irerê, é tempero de raiz da abóbora. Guenga, é tempero de raiz salsa seca. Abará, feito de feijão fratinho enrolado na folha da bananeira ou abará de flor de arroz, não leva dendê é mais leve. Carne do sol, com pirão de leite. Feijoada baiana, com verduras, carne seca (xarque), carne de porco ou de carneiro assado. Sarapatel, miúdo interno do porco. Mininico de carneiro, parte interna do carneiro. Cozido baiano, verduras a gosto, carnes diversas, chouriças e o famoso pirão do caldo das verduras. Galinha de molho pardo, é pedaços de galinha ou frango com sangre do mesmo. Também pode ser com pato ou peru. Rabada, é o rabo do boi, cortado em pedaço com pirão. Quiabada, leva quiabo cortado em miúdo, com camarão seco, abóbora, carne seca, carne salgada e chouriça. Quibebe, abóbora e carne seca torrada, banana da terra. A sobremesa é de origem portuguesa, indígena e doces franceses: Canjica de milho verde, pamonha de milho, arroz ou carimã. Arroz doce, com leite de coco e canela em pau ou em pó. Cocada, mole de rapadura puxa ou de coco ralado. Pé de moleque ou amora, leva amendoim frito e açúcar queimado. Beijú de forno, leva coco ralado. Requeijão frito, com açúcar e pó de canela. Acompanhado com refresco de umbú, extrai o sumo da fruta com açúcar e água a gosto, serve-se gelado. Refresco de jenipapo extrai o sumo da fruta, leva açúcar e água a gosto. Também, chamado de Aluá, o sumo da casca do abacaxi em descanso com água, rapadura ou açúcar, leva dois dias. Vamos ler a narrativa abaixo: “No tempo de Brasil Colônia e Império as sobremesas e doces, eram de especialidade dos Conventos, geralmente regidos por freiras francesas; mãe benta, sopa de frade, biscoitos do bispo, palha de abade ou fios de ovos, barriga de freira, fatias celestes, bolo da trindade, hóstias, papos de anjos, mistérios, toucinho do céu, baba de moça, beijinhos, bolo do amor, beijos de moça, suspiros de donzelas, lacinhos do amor, bolo da esperança, língua de moça, bolinho dos esquecidos, desmamados, casadinhos (duas bolachinhas com geléia de pêssego), apressadinhos, fatia de parida, bons bocados, levanta velho, delicias, marmelo recheados, melindres, mexericos, lamurias. Havia os confeites e sequilhos do Convento da Soledade, principalmente a geléia de mocotó do Convento do Desterro e os doces; doce de banana, queimados de água de flor, canjica de milho verde. Convento da Lapa; xarope de angico, um santo remédio para os pulmões. Os inesquecíveis sonhos, queijadas de coco, pastéis folhados dos Perdões ou de São Raimundo. Ainda tinha as guloseimas do Convento das Mêrces que eram uns verdadeiros manjas dos deuses.E assim as lembranças põem em minha boca os sabores bem gostosos: pão de ló, flor de polvilho, leite frito, bolo de comadre, espuma de praia bolinhos bordados, bolo de São João, bolo de aipim, doce de Jeremias”(Fonte do livro “Breviário da Bahia”- autor Afrânio Peixoto) Pesquisa de Álvaro B. Marques. SSA,29.10.2012

sábado, 27 de outubro de 2012

O QUE A HISTÓRIA NOS CONTA - LEGADO




Vamos ler o que nos conta o historiador Afrânio Peixoto em seu livro “Livro de Horas” publicado em 1947 e que fora um dos maiores divulgadores da História da Bahia antiga.
“O maior legado que a Santa Casa da Misericórdia recebeu, em toda a sua existência. Foi o legado post-morte do João de Mattos de Aguiar ou capitão João de Matinhos nome que o povo batizou este benemérito. Faleceu na Bahia em 26 de maio de 1700 deixando para a Santa Casa da Misericórdia mais de hum milhão de cruzados para obras pias, dos quais, cerca de cem mil destinados ao recolhimento de órfãs.
No nosso passado, bem distante, as pessoas de bens e religiosas, tinham a obrigação de deixar para a Irmandade, quando não havia herdeiros, seus bens e fortunas. Em troca, a Irmandade daria jazigo perpétuo, missas rezadas para a respectiva até a consumação do século e no caso de haver no legado alguma herdeiro junto com a Santa Casa da Misericórdia seria esta pessoa avisada e não passava desta pessoa. E seus nomes imortalizados nas casas pias.
O dinheiro de João de Matinhos parte das órfãs seria posto a render (a Stª Casa emprestava dinheiro a juros de 6 ou mais por cento ao mês) e a manutenção do recolhimento. Em 29 de junho de 1716 foi inaugurada com oito recolhidas a regente e porteira foi escolhida e teria que ser “senhora nobre e da maior reputação”.
“O edifício na época era na rua da Misericórdia, casarão ligado à Capela de Santa Casa por um arco( semelhante ao que tinha na Igreja da Sé com o Paço Arquiepiscopal, fazia a comunicação), chamado de “Arco da Misericórdia”. Hoje já não mais existe, aparece a parede vedando. Neste recolhimento, no térreo, estava instalado o “dispositivo” chamado de “roda” ou “Casa da Roda” para receber os “enjeitados”(crianças  abandonadas). Era um compartimento de madeira que circulava quando colocava-se  uma criança sem ser vistas de dentro. Desde 14 de janeiro de 1738 que os “enjeitados” eram criados, meninos e meninas no recolhimento em área separado.”
“Havia neste período outra obra de proteção a órfãs desvalidas, criadas pelo Padre Francisco Gomes de Sousa, constituiu o Colégio de Órfãs do Santíssimo Coração de Jesus, na própria casa à rua de São José de Ribamar, freguesia de Santo Antonio Além do Carmo de 1827 á 1847, quando recebeu o legado de Francisco Meuron (fabricante de “pó de rapé”) Suisso. Cujo valor foi 50:000$00 que se achava depositado no Banco para o Asilo de Mendicidade. O beneficiente morreu longe daqui. Com esta caridade, foi adquirido outro edifício, reformado, na rua da Cova da Onça. Inaugurado em 1857 onde se estabeleceu o Colégio com 120 órfãs sobre a direção das irmãs de caridade francesas.”
Sobre este assunto, também escreveu o livro: “A Bahia no século XVIII” do autor: Luis Vilhena – págs. 111 a 119 – carta II nota e comentários de Braz do Amaral coleção Bahia. Seguiremos abaixo:
João de Mattos e Aguiar: “Vulgarmente conhecido pelo apelido de João de Matinhos. Este filantropo, ao morrer deixou para á Santa Casa da Misericórdia a sua fortuna avaliada em 228:000$000 mil réis, instituindo que a Misericórdia, fizesse uma casa de recolhimento para crianças e mulheres. Ele fora escrivão e provedor da Santa Casa. A princípio chamava-se de “Recolhimento Santo Nome de Jesus”, sendo inaugurado em 29 de junho de 1716 e extinto em 7 de janeiro de 1869. O recolhimento foi transformado no Asilo dos Expostos que primeiro existiu no pavimento térreo do edifício da Santa Casa, vindo depois para a chácara do Pinheiro ao Campo da Pólvora – Pupileira, antiga “Roda”.
Extraído do livro de relatório da Santa Casa de Misericórdia da Bahia – período 1843 a 1856 – tipografia de L.A. Portella e Companhia – mês de agosto de 1843. Relatório escrito por vários Tesoureiros em seus balancetes. REL. BA – SCM 1843 – CÓDIGO. Leia-se: “ José Bento Gonçalves, homem de grandes posses e muito religioso. Ao morrer, sem familiares em vida, deixa seu testamenteiro a incumbência de comprar para a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, dois imóveis no valor de 31.000$000(trinta e hum mil contos de réis) a quem ficarão pertencendo, com a condição de serem os rendimentos (alugueis dos imóveis)  dela aplicado para o sustento em vida de dois escravos, que o mesmo falecido libertou, um dos quais já não existia, e por isso, só o rendimento de uma está abrigado às condições.”
Legado -  Em 19 de março de 1710 D. Loureça Maria possuidora das terras na Península de Itapagipe nesta cidade, fez doação de todas as terras e a Capela da Boa Viajem com ônus para o Convento de S. Francisco e mandou fazer anualmente missas por sua alma e duas pela alma da sua filha D. Maria Pereira de Negreiros. Em 1712 foi construido neste local, um hospício e reedificaram a Capela com donativos de devotos muitos eram marinheiros. A Capela é pequena, simples e muito elegante, o templo no qual se faz com pomba a festa do Senhor Bom Jesus dos Navegantes no primeiro dia de cada ano; e também é celebrado a festa de Nossa Senhora da Boa Viajem no mesmo dia." (Fonte: Resumo Cronológico e Noticioso da Província da Bahia desde 1500 a 1885 - págs. 56 autor: José Alvares do Amaral.)
Observação do pesquisador: Só que o contemplado nunca soube deste legado isso é, no caso dos escravos. Este tipo de disposição é encontrado em vários testamentos em vista nos relatórios. Há casos que os herdeiros legítimos familiares estavam na miséria e não sabiam do testamento e outros quando souberam a maior parte ficou com a Santa Casa. O legado para os escravos de confiança sempre existiu no período da escravidão brasileira. Porém, poucos receberam e muitos foram ludibriados por advogados inescrupulosos. A morte não deixa aviso, mas a fortuna do morto tem sempre um destinatário.
As instituições religiosas, Irmandades e Ordens Terceiras até o inicio do século vinte admitiam seus irmãos com cláusulas normativas ao legado. Não raras as famílias ricas e pessoas de bens que não deixavam alguns bens para uma dessas caridosas instituições. Só que as necessidades pessoais foram aumentando nos fiéis e diminuindo a fé do religioso na caridade. Mostrando que há outras maneiras de se fazer Caridade sem interesse de perdão em missas seculares.
O homem temente a Deus já não mais existe. Hoje existe o homem sabedor que um Deus existe sem cobrar, sem exigir do homem a perfeição, sem sacrifícios no corpo e sem penitência na alma. Hoje o homem é livre para escolher a sua religião.
Os legados dos séculos passados foram atitudes filantrópicas, incentivado pela religião católica para todos os fiéis. Pode ainda existir para a ciência e a educação, essas são bem vindas.


Álvaro B. Marques.
SSA, 25.10.2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

É BOM SABER. A VOZ DO TAMBOR




Nota de esclarecimento: BATACOTÓ tambor de guerra dos africanos escravos na Bahia na época da escravidão. Instrumento de comunicação entre a comunidade distante. Em razão de sua forte potência sonora. Também usado no culto para atrair adeptos em dias festivos. Era grande de madeiras oca tipo cilindro cônico na abertura maior circular havia um revestimento de couro de animal que tampava a entrada, permitia que o tocador ali marcasse o som com as mãos. Este instrumento foi caçado e destruído pela repreensão policial no período de 1835 a 1840 o chefe da polícia era o Dr. Francisco Gonçalves Martins, mais adiante recebeu o titulo de Visconde de São Lourenço na Bahia. A proibição chegou ao nível de não mais fazer o tambor e não permitir a sua importação. Quando não tinham instrumentos musicais eles faziam o compasso do som com as mãos. Mais um ato de violência contra a cultura dos escravos africanos que perderam pouco a pouco a sua raiz milenar. O medo da repressão muitos uniram-se com outras seitas para surgir o Candomblé de hoje na Bahia. Mas não era somente com o tambor que havia a comunicação entre eles, o búzio pendura na roupa ou embutido no anel demonstrava ser adepto da seita o que mesmo dizia das reuniões escondidos. As mulheres passaram a usar nas orelhas o búzio como adereços e proteção dos Deuses não chamavam muito a atenção por ser  hábito. Os homens de procedência muçulmanos usavam além dos gorros uma barbicha de tradição Malê para diferenciar das outras etnias. As roupas (abadá) e gorro somente usavam no culto ou em reuniões secretas. Os alforriados e livres depois das duras repressões, prisão com açoites e deportação, os revoltosos se refugiram no interior da Capital e outros foram para  Estados vizinhos, deixando de usar os adereços comprometedores. Negando assim a sua origem de nascimento para assumir novas atitudes e poder viver. Os atabaques continuam a sonorizar nos terreiros confirmando o poder dos Orixás.




Álvaro B. Marques – trabalho de pesquisa

ESPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO DA BAHIA/PORTO



EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO DA BAHIA/ PORTO
                       (século 17 e 18)
“A Bahia importava da praça de Gôa/África as seguintes mercadorias vindas das Índias: Louças, fazendas (tecidos) pimenta do reino, canela, cravo, tapeçaria e pedras preciosas; esmeraldas e rubis. Outras mercadorias (especiarias) vinham acondicionadas em frasqueiras; perfumes e cremes para o tocador e de remédios, vasos ornamentais, garrafas de licores e outros objetos em cerâmica finas, além de louças da China compradas a preço de trocas de rolo de tabaco. Isto foi no inicio do século XVIII.”
“Nos primeiros anos do século 17, o governo português, proibiu no Brasil a fabricação de aguardente para que fosse consumida somente o aguardente vindo do Reino. Posteriormente foi facultada a sua fabricação, cuja exportação foi proibida para Angola, até que no meado do século 18 foi permitida a entrada na África.”
“Durante os séculos 16, 17 e 18 a Bahia fez comércio em larga escala com as possessões portuguesas da África, exportando fumo, algodão, açúcar, aguardente e zimbo (concha marinho, univalve, que os antigos congoleses usavam como moedas) e trazendo escravos. Até o ano de 1770 a Bahia preponderava naquele comércio, diminuindo depois do desmantelamento comercial e a concorrência da Inglaterra.”
(Fonte do livro: “Novos Documentos Para  História Colonial” – autor: Francisco Borges de Barros – Imprensa Oficial da Bahia – 1931)
Conforme Adonil, no liminar do século XVIII, o tabaco brasileiro revelava-se ainda mais lucrativo do que o açúcar. Considerado o melhor do mundo, era ávidamente adquirido pelos mercadores manchús da China em Pequim e pelos trigueiros potentados do Daomé. A melhor variedade de folha vinha da região de Cachoeira, que em 1726 produziu mais ou menos 20.000 rolos escolhidos como os melhores “ e outros tantos de qualidade inferior que deviam ser exportados para a Costa da Mina. A safra foi classificada em três qualidades a melhor sendo reservada para Portugal e a terceira categoria para a Guiné, mas tal regulamento ficara muitas vezes burlado na prática.
O tabaco da Bahia era exportado em rolo ou em pó “rapé”, nunca em folhas, disse um viajante francês de nome Dampier no ano de 1699 quando o mesmo seguiu viajam para África e assistiu o embarque e desembarque da mercadoria.
“O tabaco era conhecido aqui no Brasil com o nome de “erva santa” tinha o consumo muito grande, principalmente em forma de “rapé”. Consumido por todas as classes sociais, tinham esse hábito, usavam como “rapé” cheiravam o pó, usavam nos cachimbos e mascavam o fumo em pedaços de rolos tipo corda.Embora o açúcar, a cachaça (aguardente) fumo e o algodão fossem os principais artigos de exportação comercial da Bahia, a produção de ouro no interior da Capital estava longe de carecer de importância. Porque os Distritos mineradores de Jacobina e Rio das Contas foram descobertos no inicio do século XVIII mas durante mais ou menos 20 anos a coroa proibiu a sua exportação, sob o pretexto de que isso poderia encorajar ataques a Bahia e privar as plantações de açúcar e de tabaco do trabalho escravo. Não permaneceu esta proibição por muito mais tempo. Em 1727, ricas descobertas eram feitas nas regiões de Araçuí e Fanado em Minas Gerais sobre a vigilância do vice-rei da Bahia, durante muitos anos”
(Fonte do livro: “A Idade de Ouro do Brasil” – autor: C. R. B pág. 143/144 reeditado em 1963)
“O Brasil não só abastecia o Reino de produtos tropicais utilizados na alimentação (açúcar, farinha de mandioca, café, arroz) como ainda sustentava a produção das fábricas do Reino, dando-lhe o algodão que iria servir de matéria prima. Além disso, o ouro, o couro e diamante serviriam para o comércio. Outros gêneros brasileiros como o tabaco e drogas que entravam em Portugal dando lucro não só às Alfândegas do Reino como aos negociantes portugueses que se dedicavam a importação e exportação e que tinham a sua principal receita nos produtos coloniais.”
“Com os portos portugueses da Europa fechados devido a invasão dos franceses, era absolutamente necessário um interposto para os produtos portugueses, fossem eles os de África, Ásia ou da própria metrópole. O Rio de Janeiro, mesmo antes de 1808, já era o porto de entrada para os navios que iam e vinham da Ásia para Lisboa; fazendo do Rio de Janeiro o interposto de todos os produtos portugueses.”
“O comércio com a Ásia motivou a importação e exportação dos transportes marítimos. Criando assim uma frota considerável e os receios dos ataques piratas eram sucessivos foram os franceses, ingleses e holandeses que abordavam os navios brasileiros que viajavam abarrotados de produtos em grande valor comercial.
Foi necessário pedir autorização ao Reino para acompanhar cada navio uma nave armada em comboio ida e vinda, como segurança.”
(Fonte extraído do livro: “Relação Comerciais entre Portugal, Brasil e África Balança do Comércio em 1801/1821 – autor; Maria de Lourdes Roque de Aguiar Ribeiro) e do livro:Comércio Português na Bahia 1870/1930 – autor: Mario Augusto da Silva Santos.

“Os riscos existentes no comércio marítimo da época, levavam os negociantes e mercadores dos séculos XVI E XVII, a procurar valer-se da proteção divina. As expressões “com a favor de Deus”, os nomes de dois santos nas embarcações, eram sinais de que no entendimento daqueles que comerciavam, nada havia de certo, sem a referida proteção. O mecanismo do comercio colonial porém, mais forte que o temor dos caminhos marítimos ou os perigos oferecidos pelos sertões, impulsionava os mercadores a completar seu ciclo de transportes de mercadorias e suas trocas como sabemos, e efetivamente, pelos exemplos das “carregações” aqui expostas. Vindo de Portugal ou da Ilha de Madeira em troca de açúcar e tabaco, produtos regionais da Bahia, aguardente e os tecidos que iam à África em troca de escravos, novos, sem defeitos (moleques e molecas) que seriam marcados com cachimbo na parte visível do corpo de preferência o ombro ou rosto.
Os produtos brasileiros, aguardente e fumo, sendo trocados por escravos ou enviados a outros pontos de comércio. Tecidos da Índia ou de Hamburgo e da França, aqui vinham e eram transacionados, também servindo para negocio tanto na África como no interior do Brasil, em troca de ouro. O maior interesse dos comerciantes da Bahia eram os escravos da África e o ouro das minas da região de Benin,Benguela, Costa de Minas e Angola”.
(Fonte: “Letras de Riscos” e “Carregações” no comércio colonial da Bahia – 1660/1730 conforme consta nas páginas 31).
NOTA DO PESQUISADOR:Em épocas de crises financeiras no período Colonial e Imperial os senhores de Engenhos, hipotecavam seus bens, imóveis, fazendas, chácaras, jóias e muitas vezes não tinham como pagar as dívidas. Perdiam seus bens para a Santa Casa da Misericórdia e Caixa Econômica, até as Irmandades socorriam seus irmãos como era o caso das Irmandades mais ricas do Carmo e do São Francisco. Faziam comércio com seus escravos e contratavam serviços para seus escravos sem direito ao mesmo ter participação nos ganhos, era comum essas atitudes.
“Em 3 de novembro de 1844, houve um pavoroso incêndio no comércio – cidade baixa, ameaçando o edifício da Alfândega. Pela 1ª vez, funcionou na Bahia uma bomba contra incêndio, adquirida na Inglaterra por pedido de comerciantes da praça à Associação Comercial. A máquina bomba chegou em 10 de outubro de 1844. Para isso, teve os comerciantes de constituir um batalhão de Brigada de Incêndio por conta própria.” Fontes “Vida Econômica Financeira da Bahia de 1808 a 1899 – autor: Francisco Marques de Goés Calmon// Fato extraído do número especial do Diário Oficial, publicado em comemoração ao 1º centenário da nossa Independência em 2 de julho de 1923. Impr.Oficial do Estado – 1925 SSA/BA.
“Em virtude do Decreto nº 1.746 de 13 de outubro de 1869 o Governo Imperial reconheceu a necessidade da construção de Docas em vários trechos do comércio. Seriam executadas por Empresas particulares, foi preferida a proposta para a construção das Docas do Porto da Bahia com exportação dos construtores, será realizado pelos herdeiros de João Gonçalves Ferreira, cujos senhores já havia proposta de alargamento
da zona portuária até o Forte de São Marcelo com extensão a São Juaquim. Infelizmente por vários motivos foi adiado pela companhia organizadora com sede em Londres, através do Visconde de Mauá.” ( Fonte a mesma acima)." A Companhia havia sido incorporada em Londres em 11.10.1871 sob o nome de Bahia Docks Company Limited com o capital de L900.000 dividido em 90 mil ações com aval de Irineu Evangelista o futuro Barão de Mauá.
Visconde de Mauá – Irineu Evangelista de Sousa foi um empresário, industrial, banqueiro e político brasileiro. Nasceu em 28 de dezembro de 1813 em Petrópolis e morreu em 21 de outubro de 1889. Viajou para Londres por várias vezes para encontrar soluções para a sua situação financeira. O Fórum Judicial eram em Londres e os contratos obedeciam as leis da Inglaterra, mais um motivo que levou a falência. Foi o maior empeendedor brasileiro do Império.
NOTA COMPLEMENTAR:
"O Porto e a sua ampliação foi concedido aos Bacharéis Francisco Ignácio Ferreira e Manuel Jesuino Ferreira ou à Companhia por eles filiado com privilégio de 30 anos para construirem cinco docas e aramazens para carga e descarga, guarda e conservação das mercadorias de importação e exportação. Obras com conexões e melhoramentos no porto desta cidade, desde a Alfândega até Jequitaia. Contra tal concessão recorreram e representaram muitos proprietários comerciantes que se julgaram com direito as margens fronteiras do mar às suas propridades. Foram ao Governo Imperial pedindo a preferência em semelhante concessão, mas não foram atendidos. Como também havia os grandes importadores por serem proprietários dos Trapiches que por sua vez armazenavam os produtos de importação e exportação. Havendo por isso mais um entrave no projeto de modernização do Porto de Salvador que durou vários anos para ser realizado o modelo que vemos hoje e que já é ultrapassado. A Bahia deveria ter o maior porto do Brasil por sua localização estratégica com os países africanos e europeus.
           




Trabalho de pesquisa de Álvaro B. Marques



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